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AS SETE ÚLTIMAS PALAVRAS DO NOSSO SALVADOR NA CRUZ

Música de Joseph Haydn, Opus 51

 

Por Eugen Ranevsky

Músico Concertista Violoncelista

Membro do Quarteto de Cordas da UFRJ

Professor Aposentado da ENM da UFRJ

Discípulo da Fraternidade Rosacruz

INTRODUÇÃO:

O profundo significado dos Evangelhos provocou muitos estudos dos religiosos, cientistas e artistas. Na música, tratando-se, especificamente, do caso das "sete palavras", três nomes são conhecidos: Johann Sebastian Bach (1685-1770), que explorou fatores bíblicos, segundo as mensagens de São João e São Mateus (discípulos do Senhor), dando a forma de "Oratório" com grandes coros, orquestra e solistas. Nas suas obras, J. S. Bach narra a vida e a obra de Jesus Cristo, dando a mesma importância tanto a Jesus como a Cristo, fielmente abordando o sofrimento do "Homem Jesus" e a glória de "Cristo-Deus", seguindo a interpretação da Igreja popular; Joseph Haydn (1732-1809) que interpreta as "Sete Palavras" como etapas diferentes da vida e obra de Jesus Cristo, partindo do "Homem Jesus" até a glória do Cristo, Filho e mensageiro do Pai; e Gubaidúlina Sofia, compositora russa nascida em 1931 na República Tártara, na cidade de Chistopol. Nesta obra, a compositora demonstra a maior preocupação com o sofrimento do "Homem Jesus", usando para isto toda a técnica e conhecimento de instrumentos tais como o violoncelo e o "baião", instrumento folclórico russo, espécie de acordeão simplificado, para impressionar os ouvintes com o sofrimento de Jesus que se sacrificou para salvar e redimir a humanidade. Esta preocupação se justifica por ela viver e ter crescido num país dominado pelo materialismo e total desrespeito à religião, até as radicais mudanças acontecidas nos últimos anos.

Escolhemos a interpretação de Haydn que fica mais próxima da compreensão que temos do Drama Cósmico e da verdadeira relação entre o "Homem Jesus" e "Cristo, Filho de Deus" e Seu mensageiro.

JOSEPH HAYDN:

Grande compositor austríaco, Haydn nasceu em uma pequena localidade chamada Rohran (palavra croata que significa "bengala") no dia 31 de março (Áries) de 1732 e faleceu em Viena no dia 31 de maio de 1809.

É uma figura gigante que pode ser comparada por seu talento, sabedoria e força de trabalho com Johann Sebastian Bach. Durante sua longa vida, ele trabalhou no aperfeiçoamento da forma "Sonata" que é a base de todas as formas de música erudita. Na palavra do famosíssimo regente alemão Welhelm Furtwangler, "Haydn é o artista que colocou a pedra fundamental na construção de um belo e enorme edifício chamado Sinfonia".

Haydn deixou para a humanidade um rico patrimônio de obras sinfônicas e camerísticas, e é considerado o "Pai" da formação clássica do quarteto de cordas (dois violinos, viola e violoncelo), que é a base para qualquer conjunto sinfônico.

O quarteto de cordas, cujos instrumentos pertencem à mesma família de arco e cordas, unidos pelo mesmo tipo de som, mesmo timbre e possibilidades técnicas dos seus membros, é considerado um conjunto ideal para expressões artísticas.

Haydn, compositor clássico, escreveu música para as famosas "sete palavras que o Salvador disse ao ser crucificado e, sobre a história desta obra, detalhadamente abordada por Hans Renner em seu livro "Guia da Música de Câmera", podemos citar o seguinte trecho:

"Haydn criou esta música para a Sexta-feira da Paixão no ano de 1785, sob encomenda do bispo espanhol da Catedral de Cádiz. A razão para que ele tenha composto esta obra, ele próprio escreve da seguinte forma: `Era costume da época, todos os anos durante a Quaresma, na Catedral de Cádiz, apresentar-se um oratório e, para criar o necessário ambiente, faziam-se vários preparativos. As paredes, janelas e colunas do templo eram cobertas com panos pretos e somente uma lâmpada no meio da igreja iluminava esta santa escuridão. Na Sexta-feira, ao meio dia, as portas da igreja eram fechadas e, em seguida, começava-se a ouvir a música. Depois da solene e significativa entrada musical, o bispo subia ao púlpito, pronunciava a primeira das Sete Palavras e dava sua interpretação. Terminando, ele descia do púlpito e caía de joelhos diante do altar, rezando. Enquanto rezava, o espaço de tempo era preenchido com a música. Assim, repetia-se a cerimônia sete vezes e, cada vez, a orquestra entrava com a música depois da nova palavra pronunciada. E, para este ritual, eu tinha que compor as músicas de acordo com as palavras pronunciadas. Esta tarefa de criar 7 Adágios, cada um com duração de 10 minutos que se seguiam sucessivamente e que não deveriam cansar os presentes, não era uma tarefa muito fácil. Eu descobri logo que não poderia me prender à limitação do tempo estabelecido'."

A música é composta por 7 Adágios, com uma solene e inspirada Introdução e , no final, por um Presto muito sombrio que representa o "terremoto". Foi inicialmente escrita para orquestra e, mais tarde, esta partitura orquestral foi transformada em quarteto de cordas pelo próprio compositor. Nesta transformação, o compositor consegue criar uma atmosfera mais íntima, menos pomposa, caracterizando a luta entre o material e o espiritual.

Durante a vida do compositor, esta música sofreu modificações quando ele foi visitado pelo Mestre da Capela da Cidade de Passau, Fieberth, que acrescentou a ela um texto, transformando-a em "Cantata", com coro e orquestra. Ouvindo sua própria obra, Haydn fortaleceu a idéia de compor sua monumental "A Criação", que realizou mais tarde.

Ouvindo sua composição, Haydn sentiu que a parte melódica como também a orquestração de "As Sete Palavras" criavam uma sólida e bem característica imagem e também a necessária força para impressionar pessoas tanto profissionais como ouvintes leigos em música. A característica principal desta obra é que ele, com toda a sua religiosidade, e apesar da profundidade que as palavras encerram, não dá a ela um caráter `trágico". Ele transmite a idéia de um grande respeito ao Pai, quase infantil, cheio de profunda gratidão pela suprema demonstração do Divino Amor e Misericórdia demonstrados pelo Senhor Jesus Cristo com seu voluntário sacrifício na Cruz. Assim, as expressões de gritos e gemidos, que caracterizam a crucificação, na música de Haydn são suavizadas com pacíficas melodias. Em nenhum momento, temos expressões de escuridão sem saída. Dos 7 Adágios apresentados, todos têm caráter de iluminação e transfiguração, terminando sempre com um triunfante "maior".

Em "As Sete Últimas Palavras do Nosso Salvador na Cruz" estão sintetizadas as cinco etapas muito importantes da trajetória de Jesus : Nascimento, Batismo, Transfiguração, Crucificação e Ressurreição. Com esta obra e durante a execução do quarteto de cordas, temos certeza de que muitos corações pulsarão mais fortemente e, em certos trechos, até pulpitarão mais intensamente. Este é um sinal de que Cristo está vivo neles, cada um desejando tornar-se um Servidor da Humanidade para tirá-la mais rapidamente do caos em que se encontra.

É interessante assinalar o fato de que as Igrejas Cristãs do Ocidente têm dado ênfase ao Salvador crucificado e que as Igrejas Cristãs do Oriente (ortodoxas) têm feito da Ressurreição o seu ensinamento central, salientando o Cristo Vivo e a natureza divina do homem em vez de dar ênfase ao pecado e ao problema da salvação individual.

Antes de analisar esta obra do ponto de vista musical, ou parte emocional, cabe-nos chamar a atenção para certos pontos fundamentais da construção de uma obra sonora erudita.

A música é construída sobre três colunas fundamentais que dão base a este edifício sonoro: 1 - Melodia, representando o aspecto do Pai - idéia principal, vontade; 2 - Harmonia, representando o aspecto do Filho (Cristo) - Amor, consonância; 3 - Ritmo, representando o aspecto do Espírito Santo (Jeová) - atividade, ordem e movimento.

Os números na música têm um significado todo especial: número 1 - Deus na música - 3 em 1 e 1 em 3; na música escrita, temos 5 linhas e 4 espaços, resultando o número 9 - número da humanidade; são 12 notas musicais em uma escala, também são 12 os meses em um ano.

E também são 12 as Ondas de Vida que têm trabalhado com a humanidade desde o início do Período de Saturno:

1 - Aries (Xerofins); 2 - Taurus (Terafins); 3 - Gemini (Serafins); 4 - Cancer (Querubins); 5 - Leo Senhores da Chama); 6 - Virgo (Senhores da Sabedoria); 7 - Libra (Senhores da Individualidade); 8 - Scorpio (Senhores da Forma); 9 - Sagitarius (Senhores da Mente); 10 - Capricornu (Arcanjos); 11 - Aquarius (Anjos); 12 - Pisces (Espíritos Virginais, humanidade).

Cada uma destas separadas Ondas de Vida possui uma nota-chave e sua própria cor. O Cosmo está construído sobre os aspectos 1 - 3 - 5 - 7 - 10 - 12 e a música reflete este esquema.

Citamos somente alguns exemplos, porém, para maiores detalhes, recomendamos a leitura do livro "A Escala Musical e a Evolução", escrita por um discípulo de Max Heindel, que compilou conhecimentos das conferências dadas por seu mestre.

Não podemos afirmar que Haydn tinha conhecimento destes fatos ou aceitou estas verdades intuitivamente, sem necessitar estudá-las teoricamente, mas sabemos que os grandes mestres como Bach, Mozart, Beethoven e Schubert tiveram contato direto com o Segundo Céu ( a "casa" das vibrações e da Música das Esferas) e eram pessoas que desenvolveram sua sensibilidade auditiva durante muitas vidas. Com toda certeza, podemos dizer que as mensagens trazidas por eles têm o poder de aproximar pessoas de todos os tempos, de todas as nacionalidades e de todas as gerações.

Segundo as palavras de conhecida espiritualista Corinne Heline ( discípula de Max Heindel), o próprio Haydn dizia sobre o seu processo de "criar" suas obras tais como "As sete Palavras" e a magistral obra "A Criação" que ele se ajoelhava todos os dias e orava a Deus para dar-lhe forças para o seu trabalho. Quando meditava em Deus, concebia-O como um Ser infinitamente grande e infinitamente bom. Esta última qualidade da Natureza Divina inspirou-o com a confiança e regozijo de um Áries, seu signo, bem harmonioso, capaz de retratar até a miséria humana em um de seus "Allegros". Em sua magnífica abertura do "Caos" em "A Criação" , ele demonstra a sua Universalidade.

ANÁLISE DA OBRA:

"As Sete Últimas Palavras do Nosso Salvador na Cruz" Música de Joseph Haydn, opus 51 - Execução do Quarteto de Cordas Kodaly ( nome em homenagem a um grande compositor húngaro)

Introdução:

Escrita no tom de Ré Menor ( 3:34 min), nos coloca numa atmosfera triste e abstrata, querendo analisar toda a situação criada pelos homens em sua ignorância e sua infantil maneira de pensar. Haydn nos conduz a uma meditação profunda.

Primeira Palavra:

"Pai, perdoai-os, pois eles não sabem o que fazem" - São Lucas 23: 34.

Nessa primeira frase, tão indefesa quanto uma criança, ainda assim Jesus testemunha a realidade de sua Primeira Iniciação quando era uma "criança em Cristo". Ao afirmar seu reconhecimento do Pai, evocava Seu perdão para aqueles que pecavam. Em muitos casos, o pecado é sinônimo de ignorância, mas onde há ignorância não há pecado. O perdão é o resultado de processos vivos que produzem aquela atitude na qual o homem deixa de ser ignorante e, por conseguinte, já não precisa ser perdoado, pois o outro lado da ignorância aponta para o caminho da sabedoria. A vida e a experiência nos proporcionam isso e não há como impedir o processo. O que nos põe de bem com Deus não é uma crença teológica, mas sim uma atitude para com a vida e para com o Cristo que habita no coração do homem. Nós aprendemos a não pecar por meio da dor e do sofrimento, isto é, da experiência. O perdão, conforme o caso, pode vir através da aplicação do princípio da justiça: "Aquele que alcança a sabedoria sabe entender quando a lei do Karma ou de `Causa e Efeito' da justiça natural aplica-se em sua vida e sabe que isto o libertará dos grilhões do passado".

A música para a Primeira Palavra, escrita em Si b Maior é um "Largo" ( 3:31 min) onde a atmosfera criada pelo compositor é a da meditação filosófica. O primeiro violino do quarteto, acompanhado pelos outros três instrumentos, executa uma melodia simples que nos lembra a vida no campo com toda a sua naturalidade.

Segunda Palavra :

"Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso" - São Lucas 23 : 43

Foi focalizando os pecados que Jesus assegurou a um pecador confesso um lugar a Seu lado no Paraíso. E por que o fez? Porque aquele homem - o "bom ladrão" - soube reconhecer duas coisas: uma, a natureza divina de Cristo e outra, que Cristo trazia uma missão, ou seja, a de fundar um Reino. Se fosse hoje, dois mil anos após esses acontecimentos, certamente Jesus usaria outra linguagem. Provavelmente diria em vez de "Reino de Deus" o plano da mente. O Reino de Deus para aquele estágio da humanidade era o máximo que o homem comum poderia pretender alcançar. Hoje, um século marcado pelo avanço no campo do psiquismo, Jesus certamente falaria nos campos superiores da Mente, na abertura dos canais de comunicação com o campo espiritual, falaria em intuição, etc. Naquele tempo, a conquista correspondia a um estágio anterior. Nas águas do Jordão, no Batismo realizado por João, Jesus se libertaria de sua personalidade; em sua vida que culminou na Cruz, submeteu-se ao batismo do fogo e do sofrimento. Ultrapassando este, houve a "entrada no Paraíso", com três palavras para identificar tal condição : Felicidade, para a conotação física; Alegria,, para a alma; e Bem-aventurança,, que é uma expressão da Divindade e do Espírito.

A música, um "Grave Cantabile" ( 3:02 min), está escrita no tom de Dó Menor, mas na segunda parte, quando se fala sobre o "Paraíso", o compositor modula para Dó Maior, terminando a peça com alegria e esperança.

Terceira Palavra :

"Mulher, este é o seu filho, eis aqui a tua mãe!" - São João 19 : 26 João, o Evangelista.

Simboliza a personalidade alcançando seu ponto mais alto de perfeição irradiada do Amor Divino. Tenhamos presente que a Segunda Pessoa da Divina Trindade é a alma, o Filho de Deus, o Amor. Já Maria representa a Terceira Pessoa da Trindade, o aspecto material da Natureza que anima e nutre o Filho e dá à luz em Belém. Na prática, Ele diz: Filho, reconhece que deve dar-lhe a Luz em Belém aquela que abriga e guarda a vida do Cristo. E, para a mãe: Reconhece que na personalidade desenvolvida há latente o Cristo-criança. A matéria, ou a Virgem Maria, é glorificada por meio através desse Filho. Por isso, há no trecho uma ligação definida com a Transfiguração, a Terceira Iniciação. Nesta frase também, pela segunda vez, Jesus apontava para a solução do problema familiar da atualidade, onde, segundo ele, mesmo antecipada, voltam-se pais contra filhos e irmão contra irmão. É que há dois tipos de família: uma biológica, a dos laços sangüíneos, cada vez mais difícil de ser mantida, e a outra, a espiritual, que une as pessoas por suas afinidade de alma. Ao ligar João a Maria, era como se voltasse a afirmar: "Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem e seguem meus Ensinamentos".

Este "Grave" ( 3:38 min) começa com três acordes enérgicos confirmando a tonalidade de Mi Maior. Ouvindo esta música , sente-se a vontade do compositor de abandonar a forma "sonata" para se sentir mais livre para expressar os seus sentimentos, mas, sendo o "pai" desta forma musical, ele continua mantendo-se dentro dela. As três músicas anteriores, Haydn escreve em forma de "serenata", onde os três instrumentos ( 2o. violino, viola e violoncelo) praticamente acompanham o "solo" do 1o. violino. Nesta música, devido ao aumento de tensão emocional, os outros instrumentos começam a ter mais importância com seus comentários. O compositor usa também a forma de "pergunta" num instrumento e de "resposta" nos outros. Também pratica grandes constrastes em dinâmicas acentuações em conjunto, mas, em linhas gerais, o discurso sonoro continua muito sério e meditativo.

Quarta Palavra :

"Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" - São Marcos 15 : 34 e São Mateus 27 : 46

Lemos que "houve trevas na face da Terra por três horas". O número 3 representa a Divindade e a humanidade perfeita. Jesus Cristo, o Homem Perfeito pendeu da Cruz por "três horas" e, naquele espaço de tempo, cada um dos três aspectos de Sua natureza foi levado ao ponto mais alto de Sua conscientização e conseqüente sofrimento. O processo, entretanto, precisa ser bem compreendido; para isso, deve ser considerada não a nossa dimensão pessoal, mas sim a dimensão cósmica, onde cada frase do Cristo transcende a vida da nossa personalidade para se tornar um arquétipo que ecoa na imensidão dos tempos.

Na lógica divina, a própria crucificação tem um sentido especial. Na frase anterior, o Cristo transfigurado parece ligar o homem a Deus. Sua palavra era testemunho da relação da natureza corpórea ( o aspecto Maria) com a personalidade, alcançando um estado muito alto de perfeição e realização ( João); já naquelas três horas, houve o estágio posterior; enquanto que, na Transfiguração, o problema fôra o de, estando no corpo, chegar à consciência da alma, chegar a Deus. Isto equivalia a renunciar `aquilo por que lutara, desligando-se dos sentimentos em que se apoiara para as experiências anteriores. Para isso, tinha de privar-se de todos os contatos. Mas foi nessa experiência que Cristo iluminou a trilha até o próprio coração de Deus mesmo, aprendendo a permanecer só, seguro da Divindade, reconhecendo o próprio centro da vida espiritual como estável e eterno. Ao mesmo tempo em que bebia a taça amarga, alcançava a consciência do Espírito Divino inato, consciente somente da Verdade da Essência Divina. Privado de tudo sobre que se pudesse ter apoiado, poderia exclamar: "Eu Sou Aquele, Eu Sou, e nada mais há!" Era como se, figurativamente, com uma das mãos, segurasse a mão de Seu Pai no Céu, e estendesse a outra, abençoando o mundo dos homens, pois somente as mãos que tudo abandonarem nos três mundos estarão livres para transmitir a bênção última à humanidade que luta.

Naquele tempo, era costume um instrutor - um Rabi - ensinar os seus discípulos sentados nas escadarias do Templo; além disso, nessas oportunidades, era costume pronunciar uma frase para os discípulos acompanharem a instrução. Os discípulos sabiam o que viria em seguida. No caso do assunto em questão, a chave está no Salmo 22 de Davi. Ele começa precisamente com esta frase: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?". Lendo o Salmo, veremos que a primeira metade exibe o sofrimento do homem até ter seus ossos descarnados, mas a outra metade revela todo o esplendor do triunfo sobre o sofrimento e sobre a morte - um imenso louvor e glorificação ao Pai, evidenciando a imensidão da conquista espiritual, a descoberta da própria natureza Divina.

A música escrita para a Quarta Palavra está na tonalidade de Fá Maior. Este "Largo" ( 3:35 min) é construído com frases musicais que têm caráter de falta de ar, uma luta do corpo físico com o sofrimento, mas é diferente de outras composições para o mesmo assunto. Haydn continua mantendo a sua postura filosófica sem o uso dos artifícios musicais usados por outros compositores, dando sempre a maior importância ao domínio do Espírito sobre a matéria.

Quinta Palavra :

"Tenho sede!" - São João 19 : 29

E logo, erradamente, lhe deram vinagre. Ao assumir a tarefa de um Salvador Mundial, Ele decidiu permanecer com a humanidade para nos ajudar a crescer até que todos os filhos de Deus encontrem seu caminho de volta para a Casa do Pai. A sede, assim experimentada, é a sede do Salvador, de Quem sabe o que tem a fazer, de Quem não tem tempo a perder. Para entender essa sede, precisamos nós mesmos entender a nossa participação no processo: fazer do caminho do Salvador o nosso próprio Caminho. Assim, são revelados a vida e o propósito de Deus, ao se utilizar de uma Encarnação de um Deus.

A música para esta Palavra está escrita no tom de Lá Maior. Mais uma vez o compositor utiliza tonalidade maior, em vez de menor, o que seria natural para nosso entendimento do fato que esta música pretende descrever. Mais uma prova de que Haydn estava imaginando a glória do Espírito sobre a matéria. O "Adagio" da 5a. Sonata ( 3:20 min) inicia-se com acorde em dinâmica forte, confirmando a tonalidade da peça. Em seguida, os suaves "pizzicatos" de três instrumentos servem de base harmônica para o 1o. violino cantar uma suave melodia, que deve corresponder à tranqüilidade do Espírito do Crucificado. Às vezes, a angústia do seu corpo físico aparece nas entradas da "voz" do violoncelo, mas logo é dominada pela força da vontade, normalizando a situação. Volta e meia ouvimos suspiros dos violinos, da viola ou do violoncelo, mas a tranqüilidade permanece, a peça terminando na tonalidade inicial.

Sexta Palavra :

"Está consumado! " - São João 19 : 30

Esta frase evidencia que Sua intenção estava coroada de êxito : ele fizera aquilo para que encarnara. Sua sede pelas almas dos homens O levara a forçar a abertura da porta da Natureza Divina do homem e a mantê-la aberta para nós. E o portão para o Reino permaneceu aberto, pois ele mostrará o caminho. Podia exclamar em triunfo "Está consumado!" Ele ergue-se de Sua prisão e quando o Sol cruza o Equador, Ele pende da Cruz e exclama: "Está consumado!" Isto significa que Seu trabalho para aquele ano foi cumprido. Não é um brado de agonia, mas de triunfo, uma exclamação de alegria pela hora da liberdade onde, mais uma vez, Ele pode elevar-se por algum tempo, livre dos grilhões de nosso planeta. Sintonizemos nossos corações com este grandioso acontecimento cósmico; regozijemo-nos com Cristo, nosso Salvador por Seu sacrifício anual ter chegado ao fim; sejamos gratos, no mais íntimo de nosso ser por ele estar livre das correntes da Terra e que a vida que derramou em nosso planeta seja suficiente para levar-nos ao próximo Natal!

A música para esta 6a. Palavra, um "Lento" (2:33 min) escrito em Ré Menor, está coerente com a atmosfera existente, mas na sua segunda metade, de repente, muda para o tom de Sol Maior. Esta nova tonalidade maior nos leva à alegria da Glória. Sétima Palavra : "Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito!" - São Lucas 23 : 46 É o Espírito da Vida no Cristo e também em nós, que nos faz filhos de Deus e garante nossa realização final. Todas as barreiras de separação foram abolidas. O Reino de Deus existe e através do Cristo aguarda expressão em cada um de nós. A música para esta Sétima Palavra está escrita em Mi b Maior. Este último "Largo" (2:22 min) tem caráter solene e o compositor, com o uso de "surdinas" nos instrumentos (abafador e modificador do timbre do instrumento) consegue criar a atmosfera de um festivo silêncio e de delicadeza que surgem sempre para dar início a uma tempestade.

Terremoto:

Em dado momento, um dos legionários crava a lança no flanco e, da ferida, correram sangue e água. O sangue escorreu abundantemente. Era um sangue de um Ser altamente dotado, com uma energia cósmica altamente concentrada. Quando Jesus expirou, houve o terremoto e, com ele, o véu do Templo se rasgou em dois, de alto a baixo. Também houve um furacão e o céu, por um tempo, ficou negro de tantas nuvens acumuladas que logo desabaram em forte aguaceiro que levou também o sangue derramado, energizando progressivamente todo o planeta. O acesso a Deus estava estabelecido e as forças internas espirituais puderam manifestar-se sem obstáculos.

Para terminar sua obra, Haydn pinta um quadro sonoro exigindo toda a força dos intérpretes, querendo expressar que toda a maldade e injustiça apresentados por homens da Terra ( obedecendo a natural lei de "Causa e Efeito") não podia provocar outra reação da Natureza, somente as trovoadas e relâmpagos; porém, estes "relâmpagos" da natureza estão soando não como reação caótica, mas como uníssonos e em plena harmonia, totalmente diferente das reações desordenadas dos homens.

A música, que começa no tom de Dó Menor ( 2:03 min) , no fim termina em maior, mais uma vez confirmando a glória e triunfo do Espírito.

PARTE FINAL:

Para terminar esta pequena análise da obra do grande Mestre Haydn, é bom lembrar a semelhança do ponto de vista entre este grande mensageiro- artista e outro grande mensageiro-espiritual, Max Heindel, que nos disse:

"Não foi um gemido de agonia exalado dos seus lábios de supliciado, como a tradução dos Evangelhos nos faz supor. Ele iniciou esta fase do seu ministério com o grito de triunfo CONSUMATUM EST ( a obra está completa e os fins foram atingidos) . Foi este o grito do espírito libertado da prisão do "corpo de morte" como diz São Paulo. Todos nós estamos acorrentados, como Ele esteve, e cada discípulo segue o caminho que conduz à Cruz. Assim que seja merecedor, o Mestre lhe dirá como se libertar dos seus laços. Logo que tenha arrancado os últimos "pregos", ele ajudá-lo-á a entrar no mundo invisível revestido do "corpo espiritual".

Neste momento, também soltará o grito de alegria CONSUMATUM EST: a obra está terminada." .

 

 

Bibliografia:

Hans Renner, "Guia da Música de Câmara "

Dr. Jaime Treiger, Comentários

Max Heindel, "Interpretação Mística da Páscoa"

Arthur Taylor, "A Escala Musical e o Esquema da Evolução".

 

O Quarteto Brasileiro da UFRJ

Histórico e Galeria de Fotos
http://www.trip.com.br/quarteto/historia.htm